SOBRE MUDANÇA

    Gosto de fotografias, especialmente de rever fotos antigas. É incrível perceber as mudanças causadas pelo tempo. Essas mudanças são externas, perceptíveis ao olhar, registradas em um retrato, mas também são internas, sensíveis ao coração, registradas apenas na memória. Só eu sei exatamente o que mudou em mim, e já não sou a mesma. Ainda bem. A verdade é que, nós nunca “somos”, sempre “estamos”, li isto em um livro há um tempo atrás, e para mim, no momento, faz muito sentido. Vivemos em constante mudança.

   Sem dúvidas você também não é a mesma pessoa de alguns anos atrás, o tempo modifica todos nós, por dentro e por fora. Olhe em volta , você ainda tem todos os seus amigos de infância por perto? Ainda mora na mesma casa, na mesma cidade? Ainda usa o mesmo penteado? Veja quantas coisas estão diferentes ao seu redor e quantas transformações aconteceram dentro de você. Algumas modificações são gradativas, acontecem lentamente, quase não as notamos. Outras vezes, a mudança chega de surpresa, incomoda e nos obriga a sair de nossa zona de conforto.

   Leva tempo para nos acostumarmos com o novo. Tudo parece estar fora do lugar,  até que um dia acordamos e percebemos que podemos sim nos adaptar. Aliás, como é maravilhosa essa nossa capacidade de adaptação, eu diria que é um super poder necessário para sobreviver às variações do tempo. É difícil mudar quando as coisas vão bem, mas um olhar mais atento sobre uma outra perspectiva também nos permite enxergar algo bom na mudança. É que, da mesma forma, podemos simplesmente mudar mais uma vez quando algo não está bom.

   Tenho visto tanta gente evitando o processo de transformação, com mania de insistir naquilo que não faz bem , um trabalho que não gosta, um relacionamento que não tem mais futuro , um vício que não traz benefício , uma rotina que não é saudável, uma lista de coisas que sufocam e não permitem viver plenamente. Você não pode se curar no mesmo ambiente em que adoeceu. Se as coisas vão mal, trate-se bem , afaste-se. Mude. Mude de profissão, de cidade, se reinvente, descubra novas manias, se permita conhecer e gostar de coisas novas, novos sabores , novos amigos, novos amores, novos hobbies, novas paisagens. Tudo isso é tão clichê e ao mesmo tempo tão verdadeiro. Há tantas coisas boas esperando para serem descobertas, tantos momentos incríveis esperando para serem vividos, também é possível descobrir um novo eu dentro de você , acredite.

   No momento em que resolvemos mudar, no segundo em que percebemos as inúmeras possibilidades que o mundo nos oferece, entendemos que é possível deixar para trás a vida que planejamos, e que já não atende às nossas expectativas , e seguir em frente. O futuro é desconhecido para todos nós, e abrir mão do que nos é familiar, do que faz parte da nossa rotina, mesmo que esta já não seja tão boa como gostaríamos, nos enche de temor e dúvida. No fundo queremos ter o controle sobre tudo, mas mesmo com o coração cheio de incertezas, permita-se dar o primeiro passo, e durante o trajeto você vai descobrir que pode cultivar outros planos ou despertar sonhos adormecidos.
O que você precisa mudar hoje? Faça isso por você.

NÃO GOSTO DE VOCÊ

Deixe-me contar uma história. Quando eu era criança, no último ano em uma das escolas que frequentei, conheci uma menina chamada Nívea. Ela devia ter uns dez anos, e todos os dias ia às aulas usando salto alto e maquiagem. Ela era magra e bem alta para a idade dela, de forma que se destacava entre as colegas de classe da mesma faixa etária. Nívea tinha um sonho, ser modelo. Sonhava em desfilar pelas passarelas, atrair os olhares do público, ter dinheiro e ser feliz. Mas, até então, desfilava apenas pelos corredores da escola, atraía somente desprezo por parte das outras meninas da sua sala e diante disso era difícil ser feliz naquele ambiente. Logo no seu primeiro dia de aula, sofreu bastante rejeição por parte da turma que, aliás, já era bem reduzida. Conclusão, a menina não conseguiu fazer muitos amigos, não se adaptou e logo teve que deixar a escola.

Durante algum tempo observei Nívea tentando ser legal com os colegas, até queria se enturmar, fazer amizade, sem sucesso,  suas tentativas foram todas frustradas. Certa vez, perguntei a algumas meninas o porquê do ódio gratuito. As respostas foram as mais banais: “ela é muito exibida”, “já viu o jeito que ela anda?”, “ela vive desfilando”, “odeio o barulho dos sapatos dela”… Acho que não preciso entrar em detalhes e explicar o sentimento que motivava estas meninas, não é mesmo?

Esta história é pra dizer que nem todas as pessoas vão gostar de você. Pode ser o seu jeito de falar ou simplesmente a sua voz, a maneira como você caminha, o seu cabelo, a sua gargalhada ou outros fatores mais comuns, como opiniões divergentes e outras questões relacionadas à sua personalidade, a lista é bem vasta. O fato é que algo em você pode causar certo ”desconforto” em um grupo ou alguém. Mas, como dizem por aí, nem Cristo agradou a todos, não é mesmo? Eu sei isto é triste, mas é a pura realidade. Talvez seja por causa dessa nossa mania de preferir o que nos é semelhante, parecido, igual. Sim, pois na maioria dos casos, o alvo da nossa apatia possui características bem diferentes das nossas, sejam elas físicas ou intelectuais, como citei no exemplo acima. Nem sempre somos atraídos pelo diferente, às vezes, as leis da física seguem seu curso natural e os opostos são facilmente repelidos.

Você deve lembrar-se da sua época de escola, quando tinha que lidar com os grupos formados, as “patotas” sempre compõem o cenário do colegial, os filmes e séries americanas retratam isto muito bem. Não se encaixa nos padrões, não fala a mesma língua, não tem o mesmo estilo? Cai fora! Que bom seria se tivéssemos que lidar com estas situações apenas uma vez na vida ou por um curto período de tempo. No entanto, crescemos e descobrimos que tudo se repete, na faculdade, no trabalho e até na igreja. Parece uma característica universal, somos seletivos.
Normalmente, quem não te curte faz questão de demonstrar isto. É um comentário de mau gosto daqui, uma atitude inconveniente dali e aos poucos vai ficando bem claro que você não é o best friend forever que o outro quer ter por perto. Desta maneira, qualquer tentativa de aproximação se torna mais difícil. Às vezes não é necessário nenhum esforço para desagradar alguém, basta ser você mesmo. Na verdade, descobri que algumas pessoas também estão insatisfeitas com elas mesmas, perto destas então, é proibido se destacar, porque isto ressaltaria suas fraquezas e cá entre nós, ninguém gosta de se sentir inferior a ninguém.

O problema surge quando, o fato de não sermos aceitos nos incomoda a ponto de tirar a nossa paz, nos deixando inseguros ou promovendo em nós a ideia de que realmente somos o que o outro pensa a nosso respeito. Gastar energia tentando ser aceito ou amado por todos é uma grande perda de tempo. Por sorte temos aquele 10% que nos curte bastante e nos deseja somente o bem. Amigos verdadeiros, família, gente que se alegra com a nossa felicidade, que sente as nossas tristezas. É destas pessoas que precisamos nos cercar, por que a vida é muito curta para valorizarmos o ódio e ressentimentos. Olhe-se no espelho e seja franco consigo mesmo, reconheça os seus defeitos, mas também suas qualidades. Não mude por causa dos outros, mantenha a sua essência, seja você mesmo. Algo fascinante neste mundo é a singularidade em cada um nós.